Francisco foi o último papa?
Publicado em 05-05-2025
Muito se tem falado de papas. Sobre o
futuro papa. Se vai ser conservador, ou tradicionalista, se vai ser
progressista, ou inovador, ou na linha de Francisco. Não pretendendo aqui
conjecturar sobre tal tema, por não ter dons proféticos nem bola de cristal, ou
sequer achar importante estar aqui e agora a fazer projecções e vaticínios, dar
azo a apostas, opto pela história. E nesse exercício, pretendo trazer à colação
uma profecia, sobre o fim dos papas. É curioso, e digo-o em nome da verdade,
que ando há alguns meses a estudar e escrever sobre o que aqui partilho
convosco. Para pensarmos um pouco.
A Profecia dos Papas de S. Malaquias
A Profecia dos Papas (em latim: Prophetia
Sancti Malachiae Archiepiscopi, de Summis Pontificibus, trad.: "Profecia
do Santo Arcebispo Malaquias, referente aos Sumos Pontífices") é uma série
de 112 frases curtas e enigmáticas em latim que pretendem profetizar, ou
antever, os papas católicos (juntamente com alguns antipapas), a partir de
Celestino II (papa 1143-1144; vida ?-1144, de seu nome secular Guido di
Castello). Foi publicada pela primeira vez em 1595 pelo monge beneditino Arnold
Wion, da abadia de Oudemburg (actual Bélgica), que atribuiu a profecia a São
Malaquias (1094–1148; de seu nome Máel Ísu Ua Cerbaill, Maelisu O’Carroll), um
arcebispo de Armagh (Irlanda) do século XII.
História
Publicação e conteúdo
A suposta profecia foi publicada pela
primeira vez em 1595 por um beneditino chamado Arnold Wion numa obra sua
intitulada Lignum Vitæ (“O Madeiro da Vida”, ou “A Árvore da Vida”), que
mais não é do que uma história da ordem beneditina. O Lignum vitae foi
publicado em Veneza. Arnold de Wyon, que era um estudioso da história da sua
ordem, dedicou este livro ao rei de Espanha, Filipe II. A origem da profecia é
atribuída a meados do século XII, na época da aprovação papal dos Templários. O
Lignum vitae é uma biografia colectiva dos beneditinos que se tornaram
bispos.
Wyon atribui a profecia a São Malaquias,
o arcebispo de Armagh do século XII. Trata-se de uma “redescoberta” do monge
Arnold. Este explicou que, tanto quanto sabia, a profecia nunca tinha sido
impressa antes, mas que muitos estariam ansiosos por vê-la. Wion inclui tanto a
suposta profecia original, constituída por frases curtas e enigmáticas em
latim, como uma interpretação que aplica as declarações a papas históricos até
Urbano VII (papa durante treze dias em 1590), que Wion atribui ao historiador e
frade dominicano espanhol Alphonsus Ciacconius (1533-1590), ou Alfonso Chacón,
autor da biografia dos papas Vitae, et res gestae pontificum romanorum et
S.R.E. Cardinalium ab initio nascentis ecclesiae usque ad Clementem IX. P.O.M.
Alphonsi Ciaconii Ordinis Praedicatorum & aliorum opera descriptae (Roma,
1601).
A origem
De acordo com um relato apresentado em
1871 pelo Abade François Cucherat (1822-1887), da abadia beneditina de S.
Rigaud, Malaquias foi convocado a Roma em 1139 pelo Papa Inocêncio II para
receber dois pálios de lã, símbolos das sedes metropolitanas irlandesas de
Armagh e Cashel. Durante a sua estadia em Roma, Malaquias terá tido uma visão
dos futuros papas, a qual anotou como uma sequência de frases enigmáticas. Este
manuscrito foi então supostamente depositado nos Arquivos Secretos do Vaticano
e esquecido até à sua redescoberta em 1590, supostamente mesmo a tempo de um
conclave papal que ocorria na época.
Vários historiadores concluíram que a
profecia é uma falsificação do final do século XVI. São Bernardo de Claraval
(c. 1090-1153), santo e abade cisterciense, rigoroso e severo, contemporâneo de
Malaquias que compilou os supostos milagres do santo, não faz qualquer menção à
profecia. Malaquias morreu em Clairvaux (Clairvaux), uma abadia cisterciense
fundada por Bernardo em 1115. Aliás, Malaquias terá morrido nos braços do abade
S. Bernardo… Bernardo admirava muito Malaquias, até escreveu uma biografia
sobre o santo irlandês, mas nunca mencionou qualquer profecia.
De qualquer modo, a primeira referência
conhecida da Profecia data de 1587. Mas vejamos. O monge beneditino e erudito
espanhol Benito Jerónimo Feijóo y Montenegro refere, no seu Teatro Crítico
Universal (1724–1739), numa entrada denominada Supostas profecias,
que o elevado nível de precisão dos versos até à data em que foram publicados,
comparado com o seu elevado nível de imprecisão após essa data, é uma evidência
de que foram criados na altura da publicação. Benito [ou Benedito, ou Bento]
Jerónimo Feijó y Montenegro (Pazo de Casdemiro, Pereiro de Aguiar, província de
Ourense, 8 de Outubro de 1676 – Oviedo, 27 de Setembro de 1764) foi um monge
beneditino, ensaísta e polígrafo espanhol. É, provavelmente, a figura mais
importante do primeiro Iluminismo espanhol. Autor do precoce e curioso discurso
"Defesa da Mulher" (1726), é considerado o primeiro tratado sobre o
feminismo em Espanha. As suas duas obras mais famosas, "Teatro crítico
universal" (1726-1739) e "Cartas eruditas y curiosas"
(1742-1760), são colecções de ensaios em vários volumes que cobrem uma
variedade de assuntos, desde história natural e as ciências então conhecidas,
educação, história, religião, literatura, filologia, filosofia e medicina, até
superstições, maravilhas e temas de interesse “jornalístico” contemporâneo.
Retomando as Profecias, temos
ainda que os versos e as explicações dadas por Wion correspondem muito de perto
a uma história dos papas de 1557 escrita por Onofrio Panvinio (incluindo a
replicação de erros cometidos por Panvinio), o que pode indicar que a profecia
foi escrita com base nesta fonte. Em 1694, Claude-François Menestrier
argumentou que as declarações interpretativas adicionais não foram escritas por
Ciacconius, uma vez que a profecia não foi mencionada em nenhuma das obras do
dominicano, nem as declarações interpretativas foram listadas entre as suas
obras.
Uma teoria para explicar a criação da
profecia, apresentada pelo padre e enciclopedista francês do século XVII, Louis
Moréri, entre outros, é a de que foi espalhada por apoiantes do Cardeal
Girolamo Simoncelli em apoio da sua tentativa de se tornar papa durante o
conclave de 1590 para substituir Urbano VII (papa efémero, 15-27 Setembro 1590).
Na profecia, o papa que sucedeu a Urbano VII recebe a descrição "Ex
antiquitate Urbis" ("Da cidade velha"), e Simoncelli era, de
facto, de Orvieto, que em latim é Urbevetanum, ou “cidade velha”. Moréri
e outros propuseram que a profecia foi criada numa tentativa mal sucedida de
demonstrar que Simoncelli estava destinado a ser papa. No entanto, a descoberta
de uma referência à profecia numa carta de 1587 lançou dúvidas sobre esta
teoria. Neste documento, a comitiva do Cardeal Giovanni Girolamo Albani
interpreta o lema De rore coeli (“Do orvalho do céu”) como uma
referência ao seu mestre, com base na ligação entre alba (“amanhecer”) e
Albani, e o orvalho, como um fenómeno atmosférico matinal típico.
Este texto em torno de Simoncelli pode ser
interpretado como pretensão do autor das profecias a sugestão de que o Cardeal
Girolamo Simoncelli estava destinado a suceder a Urbano VII. Simoncelli era
natural de Orvieto, que em latim é Urbes vetus, cidade velha. Simoncelli
não foi eleito papa, antes foi o milanês Niccolò Sfondrati, que adoptou o nome
de Gregório XIV. Os proponentes das profecias tentaram explicá-las observando
que o pai de Gregório XIV era senador da antiga cidade de Milão, e a palavra
"senador" é derivada do latim senex, que significa velho,
ou que Milão é a "cidade velha" em questão, tendo sido fundada por
volta de 400 a.C..
A via da interpretação
A interpretação das entradas para papas anteriores
à pré-publicação fornecidas por Wion envolve correspondências próximas entre os
motos (lemas papais) e os locais de nascimento dos papas, nomes de família,
brasões pessoais e títulos pré-papais. Por exemplo, o primeiro moto, Ex
castro Tiberis (“de um castelo no Tibre”), enquadra-se no local de
nascimento do papa Celestino II, em Città di Castello, no Tibre. Esforços para
ligar a profecia aos papas históricos que foram eleitos após a sua publicação
foram “mais forçados”, mais “forjados”. Por exemplo, o venezianoClemente XIII (papa
1758-1769) é chamado Rosa Umbriae (“a rosa da Úmbria”), mas não era da
Úmbria e não tinha qualquer ligação com a região, a não ser de forma mais
marginal, por sido brevemente governador pontifício de Rieti, na altura parte
da Úmbria. Um escritor observa que entre os papas posteriores à publicação
(pós-1595), permanecem "algumas frases surpreendentemente
apropriadas", acrescentando que "é claro que é fácil exagerar a
precisão da lista citando simplesmente os
seus sucessos" e que "outras entradas não se encaixam tão
perfeitamente".
Entre os "sucessos" relatados
contam-se "Luz no céu" para Leão XIII (1878–1903), com um cometa no
brasão; "Religião Despovoada" para Bento XV (1914–22), cujo papado
incluiu a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa; e "Flor das
flores" para Paulo VI (1963–78), que tinha uma flor-de-lis no brasão.
M. J. O'Brien, um padre católico que
escreveu uma monografia sobre a profecia em 1880, fez delas uma avaliação
contundente:
Estas profecias não serviram para nada.
São absolutamente sem sentido. O latim é mau. É impossível atribuir tão
insignificantes absurdos... a qualquer fonte sagrada. Aqueles que escreveram em
defesa da profecia... apresentaram apenas um argumento a seu favor. As suas
tentativas de explicar as profecias depois de 1590 são, digo-o com todo o
respeito, lamentavelmente insignificantes.
O'Brien (1880)
Alguns estudiosos da literatura
profética e da história das profecias têm chamado a atenção para os conteúdos
desta obra atribuídas a S. Malaquias devido à sua conclusão iminente, ou seja,
ao fecho do ciclo dos papas estar par breve. Se a lista de descrições for
comparada uma a uma com a lista de papas históricos desde a publicação, Bento
XVI (2005–13) corresponderia à penúltima das descrições papais, Gloria
olivae (a glória da oliveira). O versículo mais longo e final prevê o
Apocalipse:
In persecutione extrema S.R.E.
sedebit. Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulationibus, quibus
transactis civitas septicollis diruetur, & judex tremendus judicabit
populum suum. Finis.
A nossa proposta de tradução seria:
Na perseguição final da Santa Igreja
Romana, sentar-se-á [isto é, como
bispo] Pedro, o Romano, que apascentará as suas ovelhas em muitas
tribulações, e quando estas coisas estiverem terminadas, a cidade das sete
colinas [isto é, Roma] será destruída, e o terrível juiz[a] julgará
o seu povo. Fim.
Vários historiadores e exegetas observam
que a profecia deixa em aberto a possibilidade de papas não listados entre
"a glória da oliveira" e o papa final, "Pedro, o Romano".
Na Lignum Vitae, a linha In perseguie extrema S.R.E. sedebit.
forma uma frase e um parágrafo separados. Embora seja frequentemente lido como
parte da entrada "Pedro, o Romano", outros intérpretes vêem-no como
uma frase separada e incompleta que se refere explicitamente a um ou mais papas
entre "a glória da oliveira" e "Pedro, o Romano".
Papas e lemas/ motes correspondentes
A lista pode ser dividida em dois
grupos; o dos papas e antipapas que reinaram antes do aparecimento da profecia,
c. 1590, para quem a ligação entre o lema e o papa é consistentemente clara. O
outro é de lemas atribuídos a papas que reinaram depois da profecia 1590), para quem a ligação entre o lema/ mote e o papa é
muitas vezes forçada ou totalmente ausente, podendo ser vista como uma forma de
pretensão ou de posdicção. A lista foi mais comummente dividida entre os lemas
74 e 75, com base nos lemas que foram explicados por Wion, e nos que não o foram.
Lorenzo Comensoli Antonini divide a lista entre os lemas 73 e 74, com base na
ligação pouco rigorosa entre Urbano VII e o lema "Do orvalho do céu",
e a referência à profecia numa carta de 1587, anterior ao papado de Urbano VII.
Outros dividem noutro ponto, entre o 71º
e o 72º lema, afirmando que há aí uma mudança de estilo. Utiliza esta distinção
para apresentar a visão de que os primeiros 71 lemas são falsificações
pós-datadas, enquanto os restantes são genuínos. Também é referido que os lemas
72-112 utilizam uma linguagem simbólica relacionada com o carácter do papa e do
seu papado, em contraste com os lemas mais literais dos papas anteriores.
Por exemplo, o lema "Leo
Florentius" ("O Leão de Florença") parece adequar-se mais do que
qualquer outro ao Papa Leão X, filho de Lorenzo de Medici, Príncipe de Florença
e o primeiro papa nascido naquela cidade. Da mesma forma, o lema
"Hyacinthus medicorum" menciona expressamente o apelido do segundo
papa. da família Medici (‘doutor’ em latim), que foi Clemente VII. Por exemplo,
o lema "Ex antiquitate Urbis" pode também admitir uma interpretação
mais directa, referindo-se ao nome do Papa Urbano VII.
Admitir esta sequência implicaria
atribuir um lema desfavorável — se quisermos — ao papa de origem florentina que
autorizou a publicação da profecia (Clemente VIII). Em vez de "Crux
Romulea" - que soa forte e decisivo - o lema "Undosus vir"
("Homem que balança") teria sido apropriado, o que parece expressar o
oposto. Isto demonstra que toda a publicação oficial dos lemas descartou os
significados mais óbvios, de forma a forçar uma interpretação que fosse
aceitável e permitida na época.
Em 2021, o historiador alemão Hermann
Joseph Hiery propôs uma atribuição diferente dos papas aos aforismos da da
publicação de 1595, removendo três dos sete antipapas: Alexandre V, João XXIII
e Félix V.
Papas e antipapas pré-publicação
(1143–1590)
O texto nas linhas prateadas abaixo
reproduz o texto original (incluindo pontuação e ortografia) do Lignum Vitae de
1595, que consistia em três colunas paralelas para os papas antes de 1590. A
primeira coluna continha o lema, a segunda, o nome do papa ou antipapa a quem
estava anexado (com erros ocasionais) e a terceira, uma explicação do lema.
Existem alguns indícios de que tanto os lemas como as explicações foram obra de
uma só pessoa do século XVI[22]. A lista original não estava numerada.
Alguns exemplos desde João Paulo I
O papa nº 109, é o “Da meia lua”
[De meditate lunae], ou seja, João Paulo I (1978), Albino Luciani no
século (1912-1978). Os proponentes das profecias tentaram ligar aquele lema a
João Paulo I, referindo-se à luz da lua e interpretando o seu nome de
nascimento (Albino) como significando "da luz branca", além da
relação com Luciani (de luz). A efemeridade do pontificado está ligada à
brevidade da lua.
Depois temos o papa 110, De labore
solis [“Do trabalho do sol”, ou “Do eclipse do sol”], só pode
ser João Paulo II (1978–2005), polaco de seu nome Karol Józef Wojtyła (1920-2005).
Os autores das profecias encontram significado na ocorrência de eclipses
solares (noutras partes do mundo) nas datas do nascimento de João Paulo II (18
de Maio de 1920) e do seu funeral (8 de Abril de 2005). Outras tentativas de
ligar o papa ao lema foram "mais forçadas", incluindo uma ligação ao
compatriota Copérnico (que formulou um modelo heliocêntrico abrangente do
Sistema Solar), uma vez que ambos eram polacos e viveram em Cracóvia durante
partes da sua vida.
A Glória oliuæ, ou “Glória
da oliveira” é o lema atribuído ao papa que se segue, o nº 111, Bento XVI
(Papa, 2005–2013; Papa emérito, 2013–2022), o alemão Joseph Alois Ratzinger
(1927-2022). Os narradores das profecias tentaram, geralmente, estabelecer uma
ligação entre Bento e a ordem olivetana para explicar este lema: a escolha do
nome papal de Bento é em homenagem a São Bento de Núrsia, fundador da Ordem
Beneditina, da qual os olivetanos são um ramo (fundados por Bernardo Tolomei,
em Itália, em 1313, com aprovação canónica em 1344). Outras explicações aludem
ao facto de ter sido um papa dedicado à paz e às reconciliações, de que o ramo
de oliveira é o símbolo.
In p[er]ſecutione extrema S.R.E. sedebit, “Na perseguição final da Santa Igreja Romana, lá se
vai sentar”, a penúltima das referências proféticas. No Lignum Vitae,
"In perseguie. Extrema S.R.E. sedebit." está na sua própria linha e é
seguido por um ponto final. Embora seja geralmente lida como parte da profecia
de "Pedro, o Romano", outras interpretações vêem-na como uma frase
separada e incompleta que se refere explicitamente a papas adicionais entre
"glória da oliveira" e "Pedro, o Romano".
Por fim, temos Petrus Romanus, qui
paſcet oues in multis tribulationibus: quibus tranſactis ciuitas ſepticollis
diruetur, & Iudex tremẽdus iudicabit populum ſuum.[e] Finis, do “papa”
nº 112. O autor chama-lhe Pedro, o Romano, acrescentando que apascentará
as suas ovelhas em muitas tribulações, e quando estas coisas estiverem
terminadas, a cidade das sete colinas [i.e., Roma] será destruída, e o
terrível juiz julgará o seu povo. Fim.
Muitas análises da profecia observam que
esta está aberta à interpretação de que papas adicionais estariam entre a
"glória da oliveira" e Pedro, o Romano. As especulações populares dos
proponentes da profecia associam esta previsão ao sucessor de Bento XVI. Após a
eleição de Francisco como papa, muitos são os defensores da sua associação à
profecia. As teorias incluem uma ligação com o seu homónimo Francisco de Assis,
cujo pai se chamava Pietro (Pedro), além da ascendência italiana.
O único nome mencionado na lista de São
Malaquias é o do suposto último papa, Petrus Romanus. Tal pode
significar que, depois de uma lista de lemas latinos (com termos que em muitos
casos fazem referência directa à Bíblia Vulgata), o parágrafo final com o nome
de Petrus Romanus é uma referência genérica aos papas da Igreja (cargo
ligado ao bispo de Roma), que explica e dá o significado geral comummente
atribuído a esta profecia (o de ser uma lista dos sumos pontífices).
O epíteto Romanus é utilizado,
segundo a tradução latina do Novo Testamento, expressamente por S. Paulo para
defender a sua posição perante o centurião (Act 22, 23-29). A divulgação desta
profecia através da imprensa coincide com a revisão da Bíblia Vulgata por volta
de 1590.
Como o manuscrito original (ca. 1140)
ainda não foi encontrado, a sua divulgação numa publicação avalizada pela
Igreja e dirigida aos católicos (Veneza, 1595), que inclui muitos documentos
antigos já conhecidos, mas nunca publicados, permite supor que o monge Arnaldo
Wion (com o aval da autoridade eclesiástica e devido à sua condição religiosa)
agiu de boa-fé, e não teve outro propósito senão o de divulgar um documento que
o antecedeu e que já era conhecido pela tradição, como o próprio atesta. O Papa
Pio XII (tal como outros papas antes dele) utilizou expressamente o lema que
lhe foi atribuído segundo a cronologia tradicional desta profecia.
Enfim…
Será então Francisco o último papa? A
antiga profecia de Malaquias surge assim como ameaçadora, ressurgindo após a
morte do Papa Francisco. O folclore alimentado em torno da profecia de São
Malaquias vaticina que o Papa Francisco pode ser o último pontífice. Os
historiadores dizem que isso é duvidoso. Não é mais do que uma lenda que
envolve uma antiga profecia apocalíptica e que pode ser interpretada como se a
morte do Papa Francisco tivesse marcado o último líder da Igreja Católica.
A lenda, concluindo, do século XII (São
Malaquias), engloba uma longa lista de papas, começando no século XII e
terminando após 112 papas. Os especialistas dizem, no entanto, que há muitas
falhas na previsão. A profecia de São Malaquias recebeu, entretanto, uma
atenção renovada porque Francisco, que faleceu recentemente, a 21 de Abril aos
88 anos, pode ser o 112.º papa desta lista. Isto significa que, dependendo da
forma como a lista for interpretada, esta pode ser a primeira vez em quase 1 000
anos que não há um novo papa previsto por São Malaquias.
A profecia tem despertado a imaginação
de fiéis, católicos e não católicos, em várias sucessões de papas. Os
especialistas, no entanto, geralmente não têm conferido muita importância à
lenda. Muitos referem até que Malaquias provavelmente nem sequer escreveu a
lista, a qual só entrou centenas de anos após a sua morte. Além disso, texto em
questão é tão-somente uma lista de 112 frases supostamente associadas a papas,
começando por Celestino II, que foi nomeado papa em 1143. Os papas não são
nomeados especificamente, ocorrendo frases ambíguas como "urso veloz"
ou "rosa da Úmbria". Ou melhor, do tempo de Malaquias até finais do século
XVI, quando os historiadores acreditam que a lista foi realmente escrita, as
descrições são bastante precisas, passando depois a oscilar entre o verosímil e
o erro, parecendo corresponder a papas reais e outros que são muito mais
forçados.
O 112º papa foi descrito como
"Pedro, o Romano". A profecia continua num pequeno parágrafo
descrevendo o que alguns interpretam como o fim do mundo, ou a "segunda
vinda" de Jesus. O parágrafo descreve a destruição da "cidade das sete
colinas" (presumivelmente Roma) e um "juiz terrível". A
interpretação apocalíptica comum do parágrafo pode estar completamente errada,
pode mesmo estar a referir-se a um acontecimento não apocalíptico e talvez ao
julgamento de um líder da nação.
Todavia, há quem a considere altamente
precisa. Mas em geral, a maior parte dos historiadores e religiosos não lhe dão
grande importância. A chamada profecia em si é tão precisa entre as décadas de
1580 e 1590 porque talvez não fora escrita até então. Quem o escreveu tinha um
grande conhecimento histórico dos papas e escolheu Malaquias, que era
relativamente obscuro, como profeta. Alguns estudiosos (como O'Brien, M. J. (1880). An
historical and critical account of the so-called Prophecy of St. Malachy,
regarding the succession of the popes. Dublin:
M.H. Gill & Son) acreditam que a profecia foi escrita em apoio de um
cardeal que estava em campanha para ser o próximo papa. Algumas das previsões
feitas para papas pós-1590 são extremamente relevantes para os papas com quem
se alinham. Por exemplo, a previsão que se coaduna com a do Papa João Paulo II,
a "do trabalho do sol". João Paulo II, por acaso, nasceu durante um
eclipse solar e foi enterrado durante um eclipse solar. Outras têm muito pouco
a ver com papas reais, mas os crentes tentaram encaixá-los na profecia
"estrangulando as provas". Por exemplo, o "urso veloz" que
se referia ao Papa Clemente XIV (1769–1774) não tem qualquer semelhança com a
realidade, já que o romagnolo Giovanni Vincenzo
Antonio Ganganelli (1705-1774) era uma pessoa lenta, ponderada e indecisa.
Francisco é mesmo o último papa?
Francisco foi o 266º papa na história do
Vaticano, mas apenas o 101º papa oficialmente reconhecido pela Igreja desde o
tempo de Malaquias. Então porque é que as pessoas acreditam que o papa
Bergoglio possa ser o 112º e último papa mencionado na profecia? Porque houve
períodos na história da Igreja em que vários líderes se afirmaram papas ao
mesmo tempo. Os que acreditam na profecia de Malaquias incluem na contagem
alguns desses “antipapas” — figuras não formalmente reconhecidas pelo Vaticano.
Francisco também não se enquadra na
descrição de "Pedro, o Romano". Alguns acreditam que, como o pai de
São Francisco de Assis se chamava Pietro, ou Pedro, a profecia ainda se aplica.
O Papa Francisco adoptou o seu nome papal em homenagem a Francisco de Assis. Ou
Francisco Xavier, segundo alguns, ou a osmose dos dois, não esquecendo que era
jesuíta como o santo navarro, acarinhar a missão apostólica também… Há também
uma pontuação debatida no texto da profecia que, segundo alguns, sugere que
pode haver um número indeterminado de papas adicionais depois do 111º e antes
de Pedro, o Romano. Ou pode ser apenas um erro de escrita. Todavia, é difícil
aplicar a lógica a algo que é inerentemente ilógico.
Conclusão
Segundo o Anuário Pontifício,
entre Leão X e Bento XVI inclusive, existem quarenta e nove papas. Segundo a Lignum
vitae, existem quarenta e nove lemas entre Leão Florentius e Petrus
Romanus, inclusive. O Lignum vitae foi publicado em 1595,
constituindo um sucesso em toda a Europa cristã e nunca tendo sofrido qualquer
sanção do Santo Ofício (hoje Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé).
Em extrema perseguição, sentar-se-á na
Santa Igreja. Romana Pedro, o Romano, que apascentará o seu rebanho durante
muitas tribulações, após as quais a cidade das sete colinas será destruída e o
Juiz Terrível julgará o seu povo. Fim. De salientar que vários historiadores
salientam que a profecia deixa em aberto a possibilidade de existir um papa
adicional entre De Gloria olivæ e o papa final, "Pedro, o
Romano", uma vez que na lista original, a linha In psecutione. S.R.E.
extremo sedebit. Está escrito num parágrafo separado como os outros lemas e que
termina com um ponto, embora seja frequentemente lido como parte da entrada
"Pedro, o Romano".
Para além destes aspectos particulares,
existem poucos estudos recentes (por exemplo: Jean-Charles de Fontbrune,
"A Profecia dos Papas", Ediciones Martínez Roca, 1985). No entanto, é
consensual que a parte final do texto fala de algum acontecimento catastrófico,
para uns de cariz religioso e para outros mais geral. Este acontecimento ocorre
cronologicamente após a morte do último bispo de Roma. Neste contexto, surgem
dúvidas sobre o que poderá significar a destruição da “cidade das sete
colinas”, distinção que se aplica não só a Roma, mas a Jerusalém e a muitas
outras cidades. Alguns dão-lhe um significado religioso, como o Juízo Final,
que seria liderado pelo "Juiz terrível". Mas a referência ao
"seu povo" é ambígua: se esse "juiz" em particular vem
julgar os católicos, os judeus ou a humanidade em geral. A "destruição ou
queda de Roma", por outro lado, tem sido uma referência tradicional em
muitos escritores cristãos, como um passo anterior ao período do Anticristo, o
grande adversário (enquanto pessoa e/ou corpo de doutrina) contrário à religião
cristã.
Recorde-se mais uma vez que Malaquias
morreu mais de quatro séculos antes de as profecias terem surgido pela primeira
vez. Pelo facto de apresentar uma descrição precisa dos papas até cerca de 1590
e a falta de precisão dos papas seguintes, os historiadores concluem geralmente
que a suposta profecia é uma invenção pseudoepigráfica escrita pouco antes da
publicação. A Igreja Católica não tem uma posição oficial, embora alguns
teólogos católicos a tenham descartado como falsificação. A profecia conclui
com um papa identificado como "Pedro, o Romano", cujo pontificado
supostamente precederá a destruição da cidade de Roma.
COMENTÁRIOS
Gostei de ler este extenso e importante texto. Tenho tanto a noção de fim de tempos. Os meus, bem sei, mas muito maior do que isso, dos TEMPOS. Gostei de o ler. Ontem assisti a um filme tremendo sobre o Bem e o Mal..., Malmkrog, sobre Os Três Diálogos e o Relato do Anticristo (1915) do filósofo russo Vladimir Soloviov. Tremenda tertúlia casual de meia dúzia de personagens reunidos num inverno branco em meio aconchegado. Tão atual... Gostei de o ler.